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“Grande expectativa”: Veja entrevista completa de médico de Cascavel após primeiros sinais em paciente que recebeu polilaminina

Agora, pela primeira vez em décadas, a esperança nasce dentro de casa. E ecoa também no Oeste do Paraná....

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Por Luiz Haab

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“Grande expectativa”: Veja entrevista completa de médico de Cascavel após primeiros sinais em paciente que recebeu polilaminina

Por anos, pacientes com lesões medulares graves no Brasil acostumaram-se a olhar para fora. As novidades vinham de longe — dos laboratórios dos Estados Unidos ou da Europa — e, quando finalmente chegavam aqui, muitas vezes já era tarde demais ou o custo tornava o acesso inviável.

Agora, pela primeira vez em décadas, a esperança nasce dentro de casa. E ecoa também no Oeste do Paraná.

No centro dessa nova narrativa científica está uma proteína até pouco tempo desconhecida do grande público: a polilaminina. Desenvolvida a partir de pesquisas conduzidas pela cientista Tatiana Coelho-Sampaio, da Universidade Federal do Rio de Janeiro, a substância tem demonstrado potencial promissor na regeneração de fibras nervosas lesionadas. E Cascavel entrou oficialmente nessa história.

No estúdio da CGN, o neurocirurgião Dr. Lázaro Lima, do Hospital Universitário do Oeste do Paraná, não hesita ao definir o momento:

“Eu considero um grande momento da ciência nacional. Nós estamos diante de uma descoberta, de um estudo experimental, mas com resultados iniciais positivos. E agora não estamos olhando de camarote. Estamos participando efetivamente desse momento.”

A fala carrega um simbolismo que vai além da medicina. Pela primeira vez, um estudo clínico inovador, desenvolvido no Brasil, avança com participação ativa de centros fora do eixo Rio-São Paulo — e com estrutura para procedimentos de alta complexidade no interior do Paraná.

“Os nossos pacientes sempre olhavam para medicamentos novos lá do exterior”, lembra o médico. “Agora a gente pode ver uma pesquisa nacional, uma medicação inovadora, disponível tanto para os pacientes quanto para a comunidade científica brasileira.”

O primeiro caso em Cascavel

O marco se concretizou no último fim de semana. Um jovem de 23 anos, vítima de um grave acidente automobilístico, tornou-se o primeiro paciente de Cascavel — e o sétimo do Paraná — a receber a polilaminina.

A lesão ocorreu entre as vértebras T3 e T4, região torácica da medula espinhal. O quadro era classificado como Grau A — o mais grave da escala: ausência total de força e sensibilidade abaixo do nível da lesão.

Até pouco tempo, o prognóstico nesses casos era quase imutável.

“Para esses pacientes com lesões medulares graves, o que a gente fazia era comunicar e oferecer algum conforto. A taxa de reversibilidade sempre foi muito pequena”, explica o neurocirurgião.

A polilaminina surge justamente para esses casos extremos — aqueles em que a medicina tradicional tinha pouco a oferecer.

Como a proteína age

A medula espinhal pode ser comparada a um grande cabo elétrico biológico. As informações saem do cérebro e percorrem esse “tubo principal” até alcançar braços, pernas e órgãos. Quando há uma ruptura, os impulsos simplesmente deixam de passar.

O objetivo da polilaminina é atuar como uma espécie de guia molecular, favorecendo o crescimento e o reencontro dos axônios lesionados.

O protocolo atual prevê aplicação única, realizada em dois pontos: acima e abaixo da área lesionada.

“Aplicamos a substância na parte superior e inferior da lesão para que ela possa agir tanto nos axônios que vêm de cima quanto nos que seguem para baixo. A ideia é possibilitar que esses caminhos se reconectem”, detalha o médico.

Nos primeiros dias, o efeito esperado é predominantemente anti-inflamatório. A regeneração nervosa, quando ocorre, é um processo de médio a longo prazo.

Quatro dias após o procedimento, o jovem paciente já apresentava sinais – ainda de discretos –  de evolução clínica, incluindo os primeiros sinais de sensibilidade nos membros inferiores.

“Qualquer melhora já nos deixa muito contentes e esperançoso juntamente com o paciente.”

Janela de tempo e critérios

Neste momento da pesquisa, a aplicação é destinada a pacientes com lesões recentes — idealmente nas primeiras 72 horas, com possibilidade de extensão até 90 dias.

Estudos pré-clínicos em animais mostraram resultados animadores, inclusive em casos antigos. Mas, na fase atual, o protocolo segue critérios rigorosos.

“Na ciência, precisamos nos basear no que já foi demonstrado. Os estudos in vitro foram positivos, os estudos em animais foram muito bons e o estudo clínico inicial também mostrou boa efetividade e baixas complicações. Isso abre uma grande expectativa.”

Expectativa — talvez essa seja a palavra que mais define o momento.

Estrutura de ponta e logística nacional

Se há ciência de ponta, também é preciso haver estrutura à altura. E é aí que Cascavel demonstra sua força.

A chegada da polilaminina envolveu autorização da Anvisa, articulação com a equipe do Rio de Janeiro e uma operação logística que incluiu transporte aéreo com escala em Foz do Iguaçu antes do desembarque em Cascavel.

Nada disso seria possível sem infraestrutura hospitalar compatível.

“A cirurgia tem complexidade tanto do ponto de vista de material quanto logístico. O fato de o hospital universitário oferecer alta complexidade, com tecnologia de ponta e equipe qualificada, nos permite participar desse momento”, afirma o médico.

Divisor de águas?

Com anos de experiência em neurocirurgia, Dr. Lázaro não usa superlativos com facilidade. Mas, ao avaliar o significado da polilaminina para o país, sua resposta é direta:

“É um momento ímpar para a ciência nacional. Estamos falando de uma possibilidade real de tratamento para uma condição que, até então, não tinha nada específico.”

Ele faz questão de ampliar o debate para além do caso individual.

“A gente precisa fortalecer o investimento em pesquisa e educação. Esse momento mostra que o Brasil é capaz.”

Uma esperança que tem CEP

Para o jovem de 23 anos, o futuro ainda é uma incógnita. A ciência exige tempo, dados, acompanhamento rigoroso. Mas, para além do resultado individual, algo já mudou na história do mundo todo, e ela está sendo construída no Brasil.

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